Edição #17
A cirurgia que me orgulho de ter recusado
Existe uma categoria de cirurgias que nunca realizei — não por falta de técnica, mas por convicção. Sobre os casos em que a resposta mais honesta é não.
Existem cirurgias que tecnicamente consigo realizar — e que decidi nunca realizar.
Não por limitação técnica. Por convicção sobre o que é certo oferecer a um paciente.
O caso que me fez refletir
Há alguns anos, uma paciente chegou ao consultório com uma solicitação clara: queria parecer completamente diferente. Não rejuvenescida — diferente. Uma identidade nova.
Ela tinha uma lista de características que queria modificar, uma referência de como queria ficar, e uma determinação que, superficialmente, parecia apenas uma paciente segura de seus objetivos.
Mas quanto mais conversávamos, mais ficava claro que a motivação não era estética — era uma tentativa de se distanciar de algo que ela estava enfrentando na vida. Uma separação recente, uma crise de identidade, uma dificuldade que a cirurgia plástica não iria resolver.
Recusei o procedimento. Não todos — mas a extensão que ela pedia.
Ela ficou irritada. Disse que eu estava sendo paternalista.
Meses depois, voltou. Agradeceu.
Os casos em que digo não
Não tenho uma lista formal. Mas tenho alguns padrões que reconheço:
Motivação externa: "meu marido quer que eu faça" ou "quero mudar de aparência depois que terminei o relacionamento". Cirurgia para agradar outra pessoa raramente produz satisfação duradoura.
Expectativa que a cirurgia não pode cumprir: "quando ficar assim, minha vida vai melhorar" — quando o que está por trás é uma questão que não tem solução cirúrgica.
Número excessivo de procedimentos em sequência: pacientes que nunca ficam satisfeitas, que voltam querendo mais, cada vez com um foco diferente. O problema não é a aparência.
O que não é paternalismo
Recusar uma cirurgia quando há razões médicas ou psicológicas claras não é paternalismo — é responsabilidade médica.
O cirurgião plástico tem o dever de avaliar não apenas o que pode ser feito tecnicamente, mas se deve ser feito para aquela pessoa, naquele momento.
Isso às vezes significa decepcionar alguém. Mas é parte do cuidado.
Até a próxima semana.
— Dr. Lucas Carneiro
Dr. Lucas Carneiro
Cirurgião Plástico · São Paulo · Membro SBCP
Corpo Clínico Hospital Albert Einstein e Sírio-Libanês
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