Edição #19
O que o fellowship na Alemanha me ensinou que a residência não ensinou
O ano em Heidelberg foi um ponto de inflexão. O que a medicina alemã tem de diferente — e o que trouxe de volta que mudou minha prática no Brasil.
Quando decidi fazer o fellowship no DKFZ em Heidelberg, muitos colegas me perguntaram: "para que ir para pesquisa em câncer sendo cirurgião plástico?"
A pergunta faz sentido à primeira vista. A resposta ficou clara nos primeiros meses lá.
O que eu esperava
Esperava aprender sobre anatomia cirúrgica avançada, sobre técnicas que não tinha visto no Brasil, sobre tecnologia.
Aprendi tudo isso. Mas não era o mais importante.
O que aprendi de verdade
Rigor metodológico na avaliação de resultados.
A cultura científica alemã — especialmente em um centro de pesquisa do calibre do DKFZ — tem uma relação com dados e com evidências que é diferente do que estava acostumado.
No Brasil, e em muitos contextos médicos, tendemos a avaliar nossos resultados de forma subjetiva: "o resultado ficou bom", "a paciente ficou satisfeita". Isso não é errado — mas é incompleto.
O que aprendi na Alemanha foi a perguntar de forma mais sistemática: como posso medir objetivamente se o resultado foi o esperado? O que, nos dados de longo prazo, diferencia uma técnica de outra? Quando a satisfação do paciente e o resultado objetivo divergem — o que isso nos diz?
A mudança prática mais importante
A partir do fellowship, comecei a documentar resultados de forma mais sistemática — fotografia padronizada em múltiplos ângulos, avaliação em múltiplos momentos, registro formal de complicações e de desvios do planejamento.
Isso parece burocrático. Não é. É a diferença entre um cirurgião que melhora ao longo do tempo de forma organizada e um que repete os mesmos erros sem perceber.
O que a medicina alemã tem que a brasileira pode aprender
Não é melhor em tudo — temos muita coisa que eles não têm, inclusive em humanidade no cuidado. Mas a relação com a evidência, com o método, com a pergunta "como eu sei que isso funciona?" é um diferencial que trouxe para minha prática.
Por que isso importa para você
Quando você escolhe um cirurgião, está escolhendo alguém que vai tomar decisões técnicas baseadas em quê. Intuição? Hábito? Modismo? Ou evidência?
O fellowship foi a experiência que mais claramente formou minha resposta a essa pergunta.
Até a próxima semana.
— Dr. Lucas Carneiro
Dr. Lucas Carneiro
Cirurgião Plástico · São Paulo · Membro SBCP
Corpo Clínico Hospital Albert Einstein e Sírio-Libanês
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